Apostando nos seios à mostra, mulheres dão grito de liberdade no bloco Vaca Profana, em Olinda

Texto: G1
Apostando nos seios à mostra, mulheres deram “um grito de liberdade” e ocuparam o Parque do Carmo, em Olinda, nesta segunda-feira (24), durante a a apresentação do bloco Vaca Profana. Em seu quinto desfile pelo Sítio Histórico, a agremiação, criada por folionas, tem um público formado praticamente por integrantes do sexo feminino.
“Está crescendo, até demais”, disse Dandara Pagu, produtora cultural e idealizadora do bloco. Segundo ela, a criação da agremiação teve relação com um caso de violência policial.
“Eu criei o Vaca depois de ter sofrido uma violência policial. Percebi que a mulher não pode viver seu corpo com liberdade, plenamente. Aí, decidi ocupar as ruas com outras mulheres para esse dia de folia, mas também de luta”, disse.
Vaca Profana é o título de uma música de Caetano Veloso, Em seus desfiles, o bloco chega a tocar essa canção em ritmo de frevo.
O bloco se concentrou no entorno do Sítio de Seu Reis, na área do Sítio Histórico de Olinda. Lá, acontecia uma festa e as mulheres relataram outro problema com a polícia.
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Bloco Vaca Profana foi criado por mulheres e conta basicamente com folionas durante os desfiles — Foto: Maiara Melo/G1
“Estava todo mundo muito animado lá dentro e a polícia tentou entrar. Mas as manas se deram as mãos e não deixaram. Algumas advogadas pediram pra ver a carta de autorização pra entrar no espaço, que é privado, e como não tinham, eles foram embora. Foi lindo de ver”, contou a paulista Nina Kovacs.
Nina falou também sobre como conheceu a criadora do bloco. “Mesmo tendo corpo padrão, vivia em um ambiente nocivo, então tinha minhas questões e angústias”, explicou.
Segundo ela, um amigo de São Paulo a apresentou a Dandara, criadora do Vaca Profana. “Ela me ajudou demais a passar por cima dessa repressão e opressão que a sociedade impõe a nós mulheres”, afirmou.
Superado o problema com a polícia, na concentração, o bloco ganhou as ladeiras. Algumas mulheres usavam fantasias que lembravam o couro de vaca. A maioria, no entanto, saiu sem a parte de cima da roupa, pintando os seios ou colocando purpurina para enfeitá-los.
A orquestra Só Mulheres, da maestrina Lurdinha Nóbrega, puxou a agremiação. “Carnaval também é político. Então a ideia é propor uma festa de mulheres, feita por mulheres e para mulheres. E elas sentem isso, chegam junto e se sentem à vontade”, concluiu Dandara Pagu.
As amigas Amanda Araújo e Fernanda Barbosa participaram do bloco pela primeira vez. “É libertador demais estar com os peitos de fora. É um sentimento coletivo, ninguém fica constrangida ou insegura, porque aqui todas estamos livres”, disse Fernanda.
“A sociedade acha que nosso peito é violento. Violência é o feminicidio, o estupro. Isso aqui é só corpo e as pessoas precisam se acostumar”, observou Amanda.
Talita Barbosa foi ao bloco pela segunda vez, diretamente de São Paulo. Ela estava com a amiga Thuane Carvalho, que sempre acompanha a agremiação.
“Vim ano passado e vou repetir pra sempre, porque é bom demais”, disse Talita. “Melhor carnaval do universo, porque dizer ‘do mundo’ é pequeno demais”, acrescentou Thuane.
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