‘Se não incluirmos as mulheres, não vamos crescer enquanto sociedade’, diz diretora da ONU Mulheres

Texto: HuffPost

Mulheres são 52% do eleitorado brasileiro, mas quando se mede a presença nos cargos de poder, os números são bem menores. Elas são 15% dos deputados federais e dos senadores e 14% dos vereadores. Já no Executivo, apenas um estado é governado por uma mulher e 12% em municípios. Esse cenário coloca o Brasil na lanterna dos rankings de presença feminina no poder.

Para Maria-Noel Vaeza, diretora regional da ONU Mulheres para as Américas e Caribe aumentar estes números e investir em uma maior participação das mulheres no mundo da política é um dever do Estado. Defensora das cotas, ela acredita que, “se não incluirmos as mulheres, não vamos crescer enquanto sociedade” e aponta que isso representa crescimento político e econômico.

A diretora regional da ONU Mulheres conversou com o HuffPost Brasil durante intervalo do Fórum WEPs 2019: um chamado à ação pela transformação social, organizado pela ONU Mulheres, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a União Europeia em São Paulo.

Em entrevista, ela fala sobre a importância de criar mecanismos para inserir mais mulheres na política e também no setor privado, mas também faz um diagnóstico sobre a falta de vontade política como razão para falhas no combate à violência contra a mulher no Brasil ― e no mundo.

“Se não há vontade política e verdadeira de erradicar um flagelo, um problema emergencial como a violência contra as mulheres, ele não chegará ao fim. É uma emergência que as mulheres morram por serem mulheres”, aponta. 

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Abaixo, os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Há 13 anos, a Lei Maria da Penha visa combater e prevenir a violência contra a mulher, mas boa parte de suas ações afirmativas que visam a prevenção não são implementadas em sua totalidade. E isso entra em choque com o dado de que o Brasil é o 5º país que mais mata mulheres no mundo. De que forma o Brasil deve avançar no combate à violência doméstica? São necessárias mudanças na Lei ou é uma questão de aprimorar o funcionamento da estrutura atual? 

Maria-Noel Vaeza: Eu acho o feminicídio, a violência contra a mulher é um problema latente em toda a América Latina. Veja, a Lei Maria da Penha, é uma lei maravilhosa. E que começou no Brasil e que tem, em sua concepção, a intenção de atacar o problema da violência contra as mulheres e principalmente buscar a prevenção. Eu acho que o mais importante é isso: a prevenção. É começar pela educação e também envolver os homens. Se não fizermos isso, não vamos findar o problema da violência.

E a primeira razão para a não implementação de uma lei em qualquer lugar no mundo é a falta de vontade política. Se não há vontade política e verdadeira de erradicar um flagelo, um problema emergencial como a violência contra as mulheres, ele não chegará ao fim. É uma emergência que as mulheres morram por serem mulheres. Não somos objeto. Somos sujeito de direito, temos os mesmos direitos que os homens e o Estado tem a obrigação de garanti-los. 

Não somos objeto. Somos sujeito de direito, temos os mesmos direitos que os homens e o Estado tem a obrigação de garanti-los.Maria-Noel Vaeza, diretora da ONU Mulheres para as Américas e Caribe.

E a segunda razão é a falta de orçamento. Se não existem linhas orçamentárias específicas direcionadas à implementação das leis, elas nunca sairão do papel. Agora, há também muitos entendimentos distintos sobre o que significa apoiar as mulheres. Há muita discussão sobre isso. Mas o mais importante é que, se não é reconhecido com dignidade que as mulheres são mães, e desempenham um trabalho não remunerado que garante o futuro de uma nação, então aí estamos frente a um problema. Estes são alguns dos problemas de sociedades que decidem ser violentas contra as mulheres. E estas são decisões sociais e, por isso, eu acredito muito que é preciso cada vez mais investir em uma mudança cultural. E isso começa nas escolas e nas igrejas, por exemplo, por serem os atores principais da relação com a família. Precisamos de uma educação que contemple formas de prevenir essa violência. 

Quão longe estamos de uma situação ideal? E quais seriam as possíveis soluções?

Eu acredito que está faltando investir exatamente no sistema de serviços essenciais que o governo tem que colocar à disposição para proteger as mulheres [atendimento nas delegacias, canais de denúncia, etc], mas também os serviços educativos. E é importante lembrar também que nesse contexto a falta de oportunidades econômicas também é uma questão. A mulher que continua em uma relação conflitiva, ainda hoje, o faz porque não tem renda, não tem possibilidade de trabalhar e, por isso, não pode sair deste ciclo. Um feminicídio não acontece de um dia para o outro. Há uma graduação, da violência psicológica, a violência física, e vai aumentando até que um dia…

A agenda da ONU

Em sua visita ao Brasil, Noel Vaeza destacou os 25 anos da Plataforma de Ação de Pequim, que possui 12 áreas de preocupação e metas para o alcance da igualdade de gênero em todo o mundo, e concentra o trabalho da ONU Mulheres até o final de 2020 ― ano em que a organização completa 10 anos. 

Assim como o movimento Geração Igualdade, para acelerar os compromissos dos países com os empoderamento de mulheres e meninas, sendo pontos altos duas rodadas do Fórum Geração da Igualdade, realizado em maio de 2020, no México, e em julho de 2020, na França.

E também os 5 anos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e da Década Internacional de Afrodescendentes, com destaque aos esforços do Brasil para avanço dos direitos humanos das mulheres nesses compromissos internacionais.

Eu acho muito importante os alertas anteriores, pensar em linguagem, pensar em comportamento. É muito importante identificar os alertas, e especialmente informar as mulheres mais jovens. O Estado tem a obrigação e o poder de efetivamente parar esta violência, mas individualmente temos uma responsabilidade enquanto sociedade civil. E isso passa por nos informarmos, nos educarmos para combater esta violência. Sem mencionar que a violência contra a mulher oferece malefícios para o desenvolvimento econômico de um país, não é mesmo? O impacto que a violência doméstica tem na economia é enorme. Há muitos estudos de comparação do custo econômico da violência.

Você acredita que a religião tem que tipo de papel no combate à violência?

Prevenir e estimular diálogo. A ONU foi criada para isso, não é? Para parar a guerra, estabelecer diálogos, para ter uma mesa em que as partes poderiam se encontrar e conversar. E a religião tem um poder importantíssimo que é exatamente desse jeito. Entender que é preciso respeito. Porque todas as religiões estão pedindo isso: respeito.

Esse é um tema que nos preocupa há muito tempo e nós pensamos muito sobre o papel das igrejas, da fé no combate à violência. Porque acreditamos que é um pouco problemática a ideia de preservar a família, esse âmbito privado, imaculado. Muitas vezes, aconselhadas e influenciadas pela sua fé, as mulheres procuram ajuda, mas para preservar a família são encorajadas a voltar para um ambiente violento, com o argumento de que “ah, não se preocupe, você tem que obedecer o seu marido”. 

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