Violência digital contra mulheres cresce com avanço da inteligência artificial
Deepfakes, divulgação de imagens sem consentimento e assédio online estão entre as novas formas de violência potencializadas pelas tecnologias de inteligência artificial
A violência contra as mulheres também se manifesta cada vez mais no ambiente digital. Com o avanço da inteligência artificial (IA), ferramentas que permitem criar e manipular imagens, vídeos e áudios passaram a ser utilizadas para ampliar práticas como assédio, exposição não consensual e ataques à reputação.
Um relatório da ONU Mulheres, divulgado em abril de 2026, analisou a violência online enfrentada por mulheres na vida pública, incluindo jornalistas, profissionais de mídia, ativistas, defensoras de direitos humanos e outras comunicadoras. A pesquisa alcançou mulheres de 119 países e mostrou o crescimento de formas de violência potencializadas pela tecnologia.
Deepfakes aumentam os riscos
Segundo o levantamento, 12% das mulheres entrevistadas relataram o compartilhamento não consensual de imagens pessoais, incluindo conteúdos íntimos ou sexuais, enquanto 6% afirmaram ter sido vítimas de deepfakes ou imagens manipuladas.
Os chamados deepfakes são conteúdos produzidos ou alterados digitalmente para fazer parecer que uma pessoa disse ou fez algo que nunca aconteceu. Quando utilizados para criar imagens íntimas falsas, podem provocar exposição, constrangimento, ameaças e consequências que ultrapassam o ambiente virtual.
A ONU Mulheres alerta que a inteligência artificial tornou esse tipo de abuso mais fácil de produzir e mais difícil de controlar, já que conteúdos podem ser replicados rapidamente e compartilhados em diferentes plataformas.
Impactos na saúde mental
A violência digital também deixa consequências fora das telas. O relatório aponta que 24,7% das mulheres jornalistas e profissionais de mídia entrevistadas foram diagnosticadas ou receberam tratamento para ansiedade ou depressão relacionados à violência online. Além disso, quase 13% relataram transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Outro efeito é a autocensura. 41% das mulheres participantes disseram evitar determinados conteúdos ou comportamentos nas redes sociais para reduzir o risco de novos ataques. Entre jornalistas e profissionais de mídia, o índice de autocensura nas redes chegou a 45% em 2025.
Violência que ultrapassa a internet
O problema não fica necessariamente restrito ao ambiente virtual. A ONU Mulheres aponta que 41% das mulheres na vida pública que sofreram violência digital também relataram ataques ou assédio offline relacionados a esses episódios.
A organização destaca que ameaças, perseguições e campanhas coordenadas de difamação podem afetar a segurança, a saúde mental e a participação das mulheres na vida pública.
Brasil começa a reforçar proteção
No Brasil, a legislação também passou a considerar o uso de tecnologias como inteligência artificial e deepfakes em situações de violência contra mulheres. A ONU Mulheres destaca que, em 2025, o Código Penal brasileiro foi alterado para aumentar a pena em casos de violência psicológica contra a mulher praticada com uso de IA ou outras tecnologias capazes de alterar sua imagem ou voz.
Para especialistas e organismos internacionais, o enfrentamento da violência digital exige a combinação de legislação, responsabilização dos agressores, atuação das plataformas e apoio às vítimas.
Como se proteger
Em casos de violência digital, é importante guardar prints, links, mensagens e demais registros do conteúdo, além de denunciar as publicações às plataformas e procurar os canais oficiais de atendimento.
📞 Central de Atendimento à Mulher: 180
🚨 Emergência: 190
A violência digital não deve ser tratada como algo menor por acontecer pela internet. Os dados da ONU Mulheres mostram que os impactos podem atingir a saúde mental, a vida profissional, a segurança e até a participação das mulheres nos espaços públicos.
Fonte: ONU Mulheres — relatório “Ponto de Virada: Violência Online, Impactos, Manifestações e Reparação na Era da IA”, produzido em parceria com TheNerve, City St George’s, University of London, UNESCO e International Center for Journalists.
