Festival mundial de grafite feito por mulheres terá trabalhos de artistas baianas projetados em prédios de Salvador

Texto: G1

O ‘Graffiti Queens Festival’ ganhou uma edição especial de quarentena este ano. As obras serão projetadas em imóveis em diferentes cidades. Em Salvador, três artistas terão trabalhos projetados.

Mulheres vão marcar presença no cenário de grafite a partir desta sexta-feira (19). A segunda edição do ‘Graffiti Queens Festival’ terá as atividades adaptadas ao período da pandemia. Por causa disso, este ano, obras de diferentes artistas serão projetadas em fachadas de imóveis, uma técnica de intervenção artística que busca dar visibilidade ao trabalho feito por artistas mulheres no cenário da arte urbana.

Nesta edição, o evento será virtual. É possível acompanhar todas as atividades através do site do Festival Graffiti Queens, pelo Youtube, ou pelo perfil no Instagram. As obras serão projetadas simultaneamente nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Salvador. Ao todo, foram 210 artistas participantes de todo Brasil e mais seis países da América Latina.

Três artistas baianas foram selecionadas para expor trabalhos no festival: Carol Garcia, Ananda Santana e Monique Primeiro. Ananda é dona do perfil Srt.as e trabalha com grafite há cerca de cinco anos. Ela ressalta a importância do projeto para dar mais visibilidade ao trabalho de mulheres no cenário:

“A cultura do grafite, historicamente foi protagonizada e escrita por homens, [por isso] é uma cultura muito masculinizada. A inserção da figura feminina neste espaço se deu algum tempo depois da sua origem, [antes] eram pouquíssimas [mulheres]”.

No entanto, para Ananda, este cenário está mudando, pois muitas mulheres estão sendo inseridas e escrevendo as próprias histórias. A idealizadora do Festival Graffiti Queens, a manauara Chermie Ferreira, também nota essa necessidade de inserção das mulheres no cenário.

A artista Ananda Santana também terá alguns trabalhos projetados no festival  — Foto: Arquivo Pessoal
A artista Ananda Santana também terá alguns trabalhos projetados no festival — Foto: Arquivo Pessoal

Chermie explica que o espaço urbano sempre foi pensado mais para os homens. As mulheres, por outro lado, criadas para o espaço privado. E, por consequência, a cultura da arte urbana acabou refletindo esta dicotomia.

“O grafite é urbano e as mulheres não estão muito neste espaço. Há mais homens na arte urbana do que mulheres, mas por conta das próprias condições que a sociedade nos impõe. Estar na rua é perigoso, há vários tipos de violência que as mulheres sofrem”, explica.

Além disso, Chermie reforça que as mulheres também têm demandas específicas que muitas vezes as impedem de participar de eventos de longa duração. Um exemplo é a maternidade, pois muitas vezes as artistas precisam levar os filhos e os eventos não têm local para deixar as crianças.

“Foi conversando com outras mulheres que percebemos a necessidade de um evento para mostrar as dificuldades de ser uma artista urbana. Existem vários eventos brasileiros voltados para o grafite, mas nenhum com este recorte e de grande proporção”, ressalta Chermie.

A primeira edição do Festival Graffiti Queens aconteceu no ano passado, em São Miguel Paulista, distrito de São Paulo. Na ocasião, mais de cem mulheres levaram as artes a muros de diferentes espaços públicos da capital paulista. Este ano, depois da reformulação da proposta, mais mulheres puderam participar do evento.

“Antes seriam 80 mulheres participando do festival físico, mas acabamos abrindo uma nova convocatória e agora serão 210 mulheres participando, em vários estados. O evento físico tinha sido adiado para outubro, mas observando a conjuntura percebemos que não seria viável, por isso optamos por manter o evento em junho, só que em edição virtual”, explica Chermie.

Chermie Ferreira é artista e idealizadora do 'Festival Graffiti Queens' — Foto: Redes Sociais
Chermie Ferreira é artista e idealizadora do ‘Festival Graffiti Queens’ — Foto: Redes Sociais

Um outro diferencial deste ano é que artistas de outros setores da arte urbana puderam participar. A edição de 2019 acabou focando apenas no grafite, mas este ano há trabalhos de pintoras, ilustradoras, fotógrafas e também performers.

A fotógrafa baiana Carol Garcia foi outra selecionada deste ano e alguns dos trabalhos dela serão projetados durante o evento. Carol trabalha com fotografia e arte urbana desde o ano 2006, tendo lançado o livro “Graffiti Salvador”, em 2014. Uma parceria com a antropóloga Barbara Falcon.

Carol Garcia é especializada em arte urbana. — Foto: Arquivo Pessoal
Carol Garcia é especializada em arte urbana. — Foto: Arquivo Pessoal

Carol ressalta que está muito feliz por poder participar da edição do festival deste ano. Na anterior, ela esteve presente apenas fotografando. Ela avalia o cenário baiano de grafite como bem forte, potente e diverso. “Tem muita gente já há muito tempo na cena e pessoas novas surgindo, especialmente mulheres”, ressalta.

Ao todo, dez projecionistas mulheres do coletivo “Projetemos” irão exibir o trabalho das mais de 200 artistas. O “Projetemos” é um coletivo formado por 180 VJs de todo o Brasil que tem por objetivo usar a projeção como ferramenta de mobilização, conscientização e informação.

“Queremos usar as plataformas digitais para poder realizar o festival, dando cor e luz à vida de muitas artistas que infelizmente estão sem poder trabalhar por conta da pandemia”, conclui Chermie.

A 2º Edição do Festival Graffiti Queens começa nesta sexta-feira (19) e vai até o domingo (21).

Mais um trabalho da fotógrafa Carol Garcia — Foto: Carol Garcia
Mais um trabalho da fotógrafa Carol Garcia — Foto: Carol Garcia
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